Análise: 10 pontos controversos do primeiro edital de games da Ancine

Da esquerda para direita: Manoel Rangel, diretor-presidente da ANCINE (Agência Nacional do Cinema), Rosana Alcântara, diretora da Ancine, Ale McHaddo, diretor da ABRAGAMES, e Luciane Gorgulho, chefe do Departamento de Cultura, Entretenimento e Turismo do BNDES Foto: Divulgação/ABRAGAMES Da esquerda para direita: Manoel Rangel, diretor-presidente da ANCINE (Agência Nacional do Cinema), Rosana Alcântara, diretora da Ancine, Ale McHaddo, diretor da ABRAGAMES, e Luciane Gorgulho, chefe do Departamento de Cultura, Entretenimento e Turismo do BNDES

Agência Nacional de Cinema (Ancine) anunciou neste mês de dezembro seu primeiro edital para financiar projetos de desenvolvimento de jogos. O projeto tem apoio da ABRAGAMES e levará o valor de R$ 10 milhões para os produtores do setor.

Apesar de um projeto tão positivo surgir neste dia 6 de dezembro com prazo máximo de consulta pública até 6 de março de 2017, o Drops de Jogos consultou um analista de mercado que pediu para manter sua identidade anônima e fez uma análise completa do edital.

Elencamos 10 pontos controversos na proposta de financiamento feita pela Ancine. O edital pode ser lido na íntegra neste link.

  1. Há exatos 40 dias úteis de preenchimento do edital, que poderá ser atraente para quem já passou pelo processo de submeter projetos do setor. No entanto, seus requisitos poderão ser estranhos para muitos desenvolvedores que nunca passaram por este tipo de seleção. Se o processo fosse mais longo ou em duas fases, o mérito dos projetos poderia ser levado mais em conta do que a entrega da documentação necessária;
  2. Estúdios cinematográficos e produtoras de filmes podem concorrer ao edital. Trata-se de uma oportunidade para empresas experientes em produção de conteúdo, que empregam especialistas em diversos assuntos e que podem facilmente embarcar numa produção de um jogo alocando recursos que já estão disponíveis. É um caso diferente de startups que só fazem jogos digitais, que deveriam ser o público-alvo de fomento no Brasil neste momento;
  3. O gasto com divulgação e assessoria de imprensa não pode ultrapassar de 5% do total do projeto. Ou seja, dentro da maior cota de participação de R$ 1 milhão, a verba total de marketing do projeto no lançamento é de R$ 50 mil;
  4. O Fundo Setorial de Audiviosual (FSA) será sócio no desenvolvimento do jogo em 12 meses da data de desembolso, prazo que parece curto para o aporte de R$ 1 milhão. Se houvesse mais tempo para desenvolvimento do projeto, sua qualidade poderia aumentar e haveria a possibilidade de se desenvolver um título "triple AAA" com mais facilidade;
  5. O sócio diminui o ganho real com o jogo, porque, depois de sua publicação, o FSA fica com 80% da receita líquida do projeto até que o desenvolvedor fature o que foi investido. Caso o participante tenha R$ 1 milhão de receita líquida com o seu jogo, o FSA ficará com R$ 800 mil do lucro. Só depois desta etapa a participação do fundo reduz para 40% da receita;
  6. A banca avaliadora é formada por sete pessoas: Dois representantes da Ancine, um representante do Ministério da Cultura, um representante da Apex-Brasil, outro do BNDES e duas pessoas consideradas de "notório saber" no setor de jogos eletrônicos. Nem metade do júri é formado por pessoas que de fato vivem o mercado de desenvolvimento de games, enquanto as demais entidades financiadoras são maioria no processo de avaliação;
  7. Mesmo com a redução da participação da FSA após o game atingir 80% de seu faturamento, o fundo permanece ganhando 40% dos rendimentos. Se os jogos precisarem de maior divulgação, limitada em 5% no edital, eles podem ser forçados a buscarem publicidade através de publishers que podem abocanhar ainda mais do seu ganho mensal;
  8. As participações Fundo Setorial de Audiviosual deveriam levar em conta a pesquisa GEDIGames, divulgada em 2014, financiada pelo BNDES e realizada pela USP. No levantamento, a maioria das empresas dedicadas exclusivamente para jogos eletrônicos são pequenos e médios negócios, ou seja, grupos que tem capacidade limitada de reinvestimento;
  9. Considerando a maioria das limitações do edital, eles tendem a facilitar o financiamento de projetos que já estão em andamento ou mais estruturados. Ou mesmo iniciativas que são desenvolvidas por empresas que não são necessariamente do segmento de games;
  10. Na parte 4 do edital, existe também a limitação de 15 anos de permanência do projeto intelectual no Brasil, exigindo que desenvolvedores que estão no exterior cumpram uma série de normas para entrarem nesta seleção da chamada pública. A tendência é que se aprovem projetos de games que se enquadrem nestas limitações, não apenas considerando o mérito de sua iniciativa.

O Drops de Jogos deixa claro que vê com bons olhos a iniciativa da Ancine com a ABRAGAMES, mas considera importante esclarecer aos seus leitores detalhes do edital que podem limitar projetos de jogos que estão sendo pensados no atual momento.

Temos um compromisso editorial com a valorização da cena brasileira de games, assim como o site parceiro Geração Gamer. Por esta razão, as críticas pontuais são necessárias para o seu melhor desenvolvimento.

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Última modificação emQuarta, 07 Dezembro 2016 18:04
Pedro Zambarda

É jornalista, escritor e comunicador. Formado em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero e em Filosofia pela FFLCH-USP. É editor-chefe do Drops de Jogos e editor do projeto Geração Gamer. Escreve sobre games, tecnologia, política, negócios, economia e sociedade. Email: dropsdejogos@gmail.com ou pedrozambarda@dropsdejogos.com.br.

Website.: www.geracaogamer.com

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